Mulheres no comando

Em 2002, Solange Emmendorfer Beraldes procurava emprego em anúncios de jornal quando encontrou um bastante curioso. Uma transportadora procurava mulheres com carteira de habilitação na categoria D. Como preenchia os dois pré-requisitos, mandou um currículo. “Havia sido dona de um depósito de material de construção e, nem sei por quê, tirei carta para dirigir caminhões”, diz. “Fiz teste em um veículo pequeno e passei.”

Desde então, a loira de 45 anos é uma das 217 mulheres que assumiram os caminhões da Braspress, empresa paulista de transporte de encomendas. Depois de passar os dois primeiros anos ao volante de um VUC (veículo urbano de carga) pelas ruas da Grande São Paulo, pediu transferência para um monstro de 22 metros de comprimento para percorrer até 750 km de estrada por dia.

Para a surpresa de muito marmanjo, ela dá conta do recado – e muito bem. Nunca fez um arranhão no caminhão e ainda põe a mão na massa quando aparece algum probleminha simples de resolver. “Percebo que chamo a atenção das pessoas quando estou na boleia”, diz. E não é só pelo batom e a maquiagem no rosto. A dama fez cursos na Scania e na Mercedes-Benz e está apta a transportar até cargas perigosas.

Ela não é a única. Em 2008, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) contabilizou aproximadamente 15 milhões de carteiras de motorista em nome de mulheres. Dessas, 415000 estão aptas a dirigir caminhões, ônibus ou carretas. O equivalente a 3,7% de todos os habilitados – 11 milhões – nas categorias C, D e E em todo o país. Pode parecer uma marca inexpressiva, mas o fato é que elas cada vez mais conquistam espaço em um mercado de trabalho que, há cerca de dez anos, era quase que exclusivo para homens.

Até a tradicional Viação Cometa se rendeu à competência feminina: são três mulheres ao volante de seus ônibus e micro-ônibus. Uma delas é Zoraide Piva, de 37 anos. Filha de caminhoneiro, ela já perdeu a conta de quantas vezes acompanhou o pai em viagens pelo Brasil. É da época de criança que nasceu a paixão pelos brutos. “Cheguei a trabalhar no campo de provas da Ford e a dirigir caminhões em Maringá (PR)”, afirma ela, que está há um mês na Cometa fazendo a rota entre São Paulo e Sorocaba.

Ela garante que muitos passageiros a elogiam pela sutileza na condução do micro-ônibus da linha. E com razão. De acordo com dados do Denatran, as mulheres não são a maioria das motoristas Ao volante de uma ambulância, a soldado Renata salva vidas presentes em acidentes de trânsito com vítimas. Em 2008, o Brasil teve 543241 homens envolvidos nessas ocorrências, ante 87619 moças. Mesmo levando em consideração que elas representam cerca de 25% de todos os condutores brasileiros, ainda assim é possível afirmar que elas não são as principais responsáveis pelas tragédias no trânsito.

A soldado Renata Silva dos Santos, de 32 anos, faz parte do Corpo de Bombeiros paulista há 14 anos e, desde 2006, é a motorista de uma das ambulâncias de resgate do 4º Grupamento de Bombeiros, localizado no Butantã. Lá, ela salva vidas todos os dias, inclusive a de condutores que se acidentam nas ruas da metrópole – como um que ficou preso nas ferragens do carro numa tarde de janeiro, fato que a impediu de continuar a responder às perguntas de QUATRO RODAS naquele dia.

“Fiz 45 dias de curso em uma turma com mais 19 homens”, diz a soldado. “Por ser a única mulher, era sempre eu quem fazia os testes em primeiro lugar. Queriam ver se me sairia bem.” Mesmo dirigindo sempre no limite, Renata só bateu uma vez – na avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi -, mas sem vítimas. Além de ficar ao volante da viatura, ela sempre checa a calibragem dos pneus, os níveis de óleo e água e, claro, a sirene.

O fato de ter nascido mulher quase sempre representa uma barreira para elas. É árdua a tarefa de abrir espaço em funções tipicamente masculinas, especialmente nas pistas de corrida. A piloto Zizi Paioli, de 23 anos, que o diga. Quando estreou na categoria brasileira de picapes, em 2005, enfrentou muita desconfiança de colegas do esporte. Já em sua primeira prova – no circuito de Interlagos -, seguia em um ótimo quinto lugar quando, a 500 metros da bandeirada, levou um chega pra lá de outro piloto. “Rodei e bati na curva do Café”, afirma. “Tenho certeza de que ele só fez aquilo porque eu sou mulher.” O piloto, cujo nome ela não lembra, foi punido posteriormente.

Zizi, que é filha do também piloto Marcos Paioli, foi alertada pelo próprio pai que passaria por dificuldades no automobilismo só por ser mulher. “No começo, eu chorava quando me sacaneavam”, diz. “Mulher é mais sentimental. Hoje, aprendi a lidar com isso e sei me impor. Além disso, já conhecem minha capacidade.” Para 2010, ela ainda não decidiu em qual categoria vai correr – mas é praticamente certa sua presença nas pistas.

Não satisfeita em ser apenas uma dos cerca de 32000 taxistas da cidade, Ivone de Souza, de 53 anos, foi mais longe ainda. Decidiu concorrer a um cargo de direção na cooperativa da qual faz parte, a Rádio Táxi Vermelho e Branco. Foi escolhida e, hoje, é uma diretora vogal – ou seja, responsável por fazer o meio-campo entre motoristas e outros diretores que estão acima dela.

Ivone entrou para a praça em 1994 contra a vontade do marido, que achava a função muito perigosa para uma mulher. “Um ano depois, fui assaltada. E, provavelmente, o fato de eu ser mulher foi decisivo, já que era uma vítima mais ‘fácil’”, afirma. Em 2004, foi para a cooperativa – que tem 625 associados.

Atualmente, dirige um Chevrolet Vectra Expression 2.0. O carro é a cara da dona. Isso porque ela costuma espirrar perfume no estofamento do carro – “o mesmo que uso”, diz – e disponibiliza quatro revistas para os seus passageiros do ponto do aeroporto de Congonhas, onde trabalha. Com o histórico de sempre quebrar paradigmas na profissão, Ivone só não consegue superar um obstáculo – que, aliás, é uma característica associada ao sexo feminino: “Sou péssima para guardar endereços. Sempre me confundo”.

Fonte: quatro rodas

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